Participantes

   

Hennion, Antoine (Paris) “Amar a Música: Duma Sociologia da Cultura a uma Pragmática do Gosto”

 

Nascido em 1952, é professor na École des Mines de Paris e ex-Director do Centro de Sociologia da Inovação (CSI). Engenheiro de Minas (1974), teve uma formação em musicologia (Paris IV-Sorbonne) e doutorou-se em sociologia na École des Hautes Études en Sciences Sociales (1991).

Tem escrito extensivamente sobre sociologia da música, dos media e das indústrias culturais (rádio, design, publicidade, etc), e sobre inovação e utilidades. Ocupando-se da da mediação, participou com colegas da CSI na definição de uma nova problematização da inovação (no domínio da Ciência, Tecnologia e Sociedade, e na sociologia das artes). Actualmente voltou-se para o estudo dos amadores, do gosto e da definição das formas de apego.

Entre as sua publicações recentes contam-se um livro sobre música (“Figures de l'amateur”, 2000, com S. Maisonneuve e É. Gomart), um livro sobre J. S. Bach no século XIX França (“La grandeur de Bach”, 2000, com J.-M . Fauquet), e “Music as Mediation” (a publicar), tradução de “La passion musicale. Une sociologie de la mediação” (1993, nova edição 2007).

 

Resumo

 

Esta comunicação trata do gosto musical como uma realização plena de significado e uma actividade situada, com os seus truques e bricolages, e não apenas como um jogo de diferenciação social e identitária em que as peças de música são meros signos e o gosto não tem espessura. Os “amadores” são competentes, activos e produtivos; transformam constantemente objectos e obras, interpretações musicais e gostos. A capacidade de ouvir, fruir, apreciar não é, nem uma qualidade pessoal, nem a contrapartida mecânica da história das obras musicais, mas sim o resultado final de ter-se colectiva e reflexivamente produzido o tempo e o espaço necessários para essa actividade, após uma longo aprendizagem histórica que produziu, ela própria, um mundo coordenado de objectos. Novos métodos devem ser desenvolvidos, se quisermos aproveitar essas competências colectivas e situadas dos amadores.

O gosto é uma modalidade problemática de ligação ao mundo. Baseada em entrevistas e observações com amadores e fãs da música, uma tal concepção abrangente e pragmática desenvolve uma “etno-teoria” experimental do amor e da prática da música, mostrando como os próprios amadores mobilizam, produzem e se apegam a diversas concepções práticas do seu gosto, principalmente, tendo em vista melhorá-lo, torná-lo duradouro e pleno de significado e, desse modo, poder compartilhá-lo com os outros: o gosto é uma maneira de o próprio se situar num mundo em movimento de objectos, corpos e dos outros. O gosto é uma performance, uma actividade reflexiva, corpórea, emoldurada, colectivo, equipada, dependente de lugares, momentos e dispositivos, a qual simultaneamente produz as competências de uma amante de música e um repertório de objectos. Carece do sociólogo para se concentrar nos gestos, objectos, corpos, suportes, dispositivos e relações envolvidos. A música oferece um excelente estudo de caso, devido tanto à sua grande variedade de géneros (popular, oral, erudito, electrónico, comercial, etc.) como ao desdobramento das suas práticas num continuum de mediações: instrumentos, partituras, repertórios, músicos, palcos, meios de comunicação, redes, modas e disfarces. Tocar, escutar, gravar, dar a ouvir aos outros ..., todas estas actividades são mais do que a mera actualização de um gosto “que já existia”. São redefinidas durante a acção, com um resultado que é, em parte, incerto.

Esta é a razão por que os apegos dos amadores e as maneiras de fazerem as coisas podem tanto envolver e formar subjectividades como ter uma história, irredutível à do gosto pelas obras e por outras coisas. Compreendido desta forma, como trabalho reflexivo realizado sobre os seus próprios apegos, o gosto do amador é uma técnica colectiva, cuja análise ajuda a compreender a forma como nos tornamos sensíveis a coisas, a nós próprios, a situações e a momentos, enquanto simultaneamente controlamos reflexivamente como esses sentimentos podem ser partilhados e discutidos com os outros.

 

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