Participantes

   

Kaden, Christian (Berlim) - “A loucura de Schumann. Horizontes da Antropologia Histórica da Música”

Christian Kaden. Estudos em musicologia e Etnologia na Universidade Humboldt de Berlim. 1973 PhD (Dissertação: “Sintaxe musical e prática histórico-social na produção funcional-laboral de sinais dos pastores”, publ. Leipzig 1977). 1972-1973 Assessor de Dramaturgia no Landestheater Halle. 1973-1993 Constituição e desenvolvimento da Sociologia da Música na investigação e ensino na Universidade Humboldt de Berlim (desde 1973 Assistente; desde 1986, Professor de Sociologia da Música). 1983 qualificação pós-doutoramento (Dr. sc. Phil.), com uma dissertação sobre “Notação – Polifonia primitiva – Composição”. Desde 1993, Professor catedrático de Musicologia na Universidade Humboldt de Berlim (Foco em Sociologia da Música, História Social da Música). Desde 2005 membro de pleno direito da Academia de Artes da Saxónia (Música). Palestras ou cursos como professor convidado: Centro de Investigação Musical e Desenvolvimento Musical em Havan (1982); Universidade Nova Lisboa (1989); Universidade de Graz (1992); Universidade de Heidelberg (1992-1993), Universidade de Chicago (1995); Universidade de Hongkong (Rayson Huang Fellowship) (2000); Universidade de Viena (2001). Vários períodos de investigação na biblioteca Herzog August em Wolfenbüttel. De 1994 a 2001 Porta-voz da secção sociologia da música e história social da Sociedade Alemã de Musicologia (Gesellschaft für Musikforschung).

Resumo

A Sociologia da Música bem como a História Social da Música fazem geralmente incidir a sua investigação nas estruturas sociais, e não nas pessoas. Ocupam-se das interações e comunicações, instituições, papéis, hábitos de género, profissões, processos de civilização e de transferência cultural etc. E tendem a reconstruir história “como foi”: objectivamente. A Antropologia Histórica (ou como também é chamada: História Antroplógica), localizada na intersecção de Sociologia, História e Etnologia, enfatiza amplamente outros aspectos. O que também pode dar férteis impulsos para abordagens sociológicas da música.

 

1. A Antropologia Histórica está vitalmente interessada nos protagonistas da história: indivíduos, personalidades, directamente através de todos os grupos sociais e estratos sociais.

2. A sua atenção é atraída pelos modos de vida, estilos de vida, práticas de vida.

3. Por isso, leva a sério as mentalidades das pessoas e dos grupos, as suas motivações, os seus ideais, preconceitos, imagens. Na maioria dos casos, estes factos são resumidos como “o ponto de vista nativo”.

4. História, numa tal perspectiva, deixa de ser representada pelas suas correntes principais e tendências gerais. É entendida como um complexo de opções e pensáveis ramificações, baseadas em decisões e responsabilidades pessoais, como uma história da subjectividade.

5. No entanto: a História Antropógica nunca pode vincular-se exclusivamente às perspectivas internas a uma cultura, às suas normas emic. Enquanto ciência é influenciada por paradigmas teóricos, pela experiência do próprio pesquisador e pelo seu conhecimento. Assim, são inevitáveis elementos etic na escrita da história. Mas isso não significa que os horizontes emic e etic sejam incompatíveis. O desafio parece ser a sua combinação, de forma complementar, a sua mútua iluminação pelo antropólogo ou historiador.

 

Que essa concepção aplicada a musicologia possa provocar novos tipos de narração da história social da música – eis o que é exemplificado na minha comunicação através de um escandaloso estudo de caso: a reconsideração da “loucura” de Robert Schumann. A tese será a de que esta doença não foi, provavelmente, o resultado fatal de uma infecção, mas sim a essência da biografia do compositor, da sua disposição vital. Ela cresceu com os conflitos de base entre os ideais estéticos de Schumann, bem como as suas atitudes comportamentais, e as normas sociais que se tornaram dominantes desde a quarta década do século XIX. Eis a razão por que o compositor nunca terá sido “louco” no sentido patológico do termo, mas sim na verdade (como o termo alemão sugere) “ver-rückt” (“removido”), por ser incapaz de aceitar as normas sociais vigentes.

 

 

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