Participantes

   

Russo Moreira, Pedro (Lisboa) - “A Rádio e a Música para Trabalhadores: Política de Transmissão da Emissora Nacional nos Anos 40”

 

Pedro Russo Moreira é licenciado em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa/ Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. É doutorando em Ciências Musicais e investigador no INET- MD. O seu trabalho centra-se sobretudo em torno de questões relacionadas com a radiodifusão e indústrias da música, política dos media e políticas culturais e processos de categorização das práticas musicais. Actualmente é docente de várias disciplinas no Instituto Piaget-ISEIT, Almada.

 

Resumo

 

A relação entre programas radiofónicos, música e público tem sido alvo de análise nas ciências sociais. No âmbito dos estudos acerca da rádio no contexto de regimes autoritários, as relações entre práticas musicais, politicas de radiodifusão, programas para trabalhadores e políticas culturais do estado não têm sido objecto de um estudo aprofundado. O debate em torno da “Alegria no Trabalho” e do lazer dos trabalhadores foi alvo de discussão durante a primeira metade do séc. XX, com a realização de diversos congressos internacionais que tiveram reflexo nas propostas nacionais adaptadas aos contextos dos diversos regimes políticos.

No âmbito dos regimes autoritários, foram criadas instituições com competências específicas para estruturar, de acordo com orientações ideológicas e de políticas culturais, a acção necessária para desenvolver ocupações consideradas “educativas” para os trabalhadores.

Com emergência da radiodifusão e a sua visibilidade durante os anos 30 e 40, vários países debateram acerca da utilização dos programas radiofónicos e da sua função para estes públicos. A construção de programas radiofónicos, em várias realidades nacionais, procurou sublinhar o carácter "cultural" ou de "entretenimento" procurando contrariar a luta de classes, e, em alguns casos, incentivando o aumento de produção nos contextos fabris, através de aparelhos radiofónicos ali colocados para o efeito.

No caso dos programas para trabalhadores, os campos discursivos construídos pelas politicas radiofónicas interpretavam este médium como uma possibilidade de educar, entreter e afastar os trabalhadores do que consideravam hábitos sociais perigosos. Neste Paper, tomando o caso português como exemplo, abordarei a parceria estratégica entre a Emissora Nacional de Radiodifusão e a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho enquadrada na política específica para este público, criando nos anos 40 os Serões para Trabalhadores. O enfoque será, portanto, um entendimento do modo como estas experiências culturais, enquanto modelos social e culturalmente “idealizados” foram implementados e reproduzidos no seu contexto politico e institucional.

Este evento resultante da colaboração entre a ENR e FNAT, configurou-se como um campo discursivo rico na definição de questões ideológicas que articularam a vários níveis os objectivos de ambas as instituições. O evento foi idealizado e consolidado através de um modelo onde a rádio construiu, através de uma relação institucional fortemente marcada pelas políticas do Estado Novo, “experiências culturais” específicas para operários.

Por outro lado, uma análise detalhada ao evento questionará qual o papel das práticas, categorias e géneros musicais que enformaram a divisão entre “cultural” e “entretenimento”, reflectindo um campo discursivo ideologicamente construído.

 

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