Nicolau, Michel (Berlim / Campinas) – “ A Percepção da Idéia de Diversidade na Indústria da Música”
Michel Nicolau é formado em Direito pela PUC-SP, estudou Letras na USP e é mestre em Sociologia pela Unicamp. Com Fernando Lara, publicou em 2008 o livro de poesia Concerto para Duas Vozes. Atuou durante alguns anos em instituições culturais, tendo sido gerente da BM&A, onde foi responsável pelo projeto de exportação de música. Atualmente é doutorando em Sociologia pela Unicamp, desenvolvendo pesquisa na área de ciências da música na Humboldt Universität, em Berlim, pelo programa de bolsas DAAD/CNPQ. Publicou diversos artigos na área de sociologia e cultura. Em julho de 2009 publica o livro Música Brasileira e Identidade Nacional na Mundialização, resultado de seu trabalho de mestrado.
Resumo
O mundo é percebido e discursado de maneiras diferentes de acordo com as épocas históricas. Importante para mim neste momento é o registro relacionado com as idéias de universal e particular, segundo as quais ou o mundo seria um “todo” uniforme ou uma colcha de retalhos, que não formaria um “todo”.
Alguns teóricos marcam que até a Segunda Guerra Mundial, especialmente durante os esclarecidos séculos XVII e XIX, o mundo era percebido como um “todo”. Teorias e idéias que eram desenvolvidas naquele tempo tentavam “captar” o mundo em uma explicação única. Daí vêm as idéias de progresso (de acordo com Nisbet), de humanidade (segundo Foucault), de movimentos sociais e revolução (conforme Marx), etc. A diversidade não era solução, mas um problema, já que todos deveriam ser parte da humanidade, assim como toda sociedade deveria se desenvolver na mesma direção (obviamente, a européia.). E esses movimentos ocorreriam de qualquer maneira, já que suas acuracidades eram comprovadas (e se preciso, corrigidas) por uma nova e incessante lei: a Razão, baseadas na recém nascida ciência moderna; algo que podia ser aplicado a todas as sociedades.
Na segunda metade do século XX teóricos perceberam que este Ideal universal chegou a seu fim. A humanidade teria se tornado uma idéia sem utilidade (para Foucault, por exemplo), o progresso não poderia ser alcançado universalmente, porque no capitalism o bem-estar das sociedades leva à pobreza de outras (para os teóricos da dependência) e, como na famosa formulação de Lyotard, as grandes narrativas estariam mortas, pois não haveria mais Teoria capaz de reunir todos o mundo. Ao mesmo tempo, os teóricos pós-coloniais começaram a acusar todas as antigas idéias universais de eurocêntricas, o que significa que o que era universal se referia apenas à Europa.
Neste novo cenário, bendição e maldição trocam de lugar. Ao invés de sua até então positividade, o discurso universal está condenado e a diversidade assume o aspecto positivo. Diferentes culturas devem ser preservadas e nenhuma cultura deve ter o direito de julgar outra ou impor a outra seus próprios aspectos. Como apontado por Renato Ortiz, a avaliação do Mito de Babel se inverteu. Se na Bíblia a diversidade das línguas foi uma punição de Deus, hoje não apenas a celebramos, mas nos esforçamos em estimular a existência de tantas línguas quanto possível.
Isso é também o que vemos na indústria da música. A world music , primeiramente, e então muitas outras categorias, abriram as portas da música ao “resto do mundo”, o que significa, aos espaços não-ocidentais. Entretanto, aqui chego ao meu problema principal, o discurso da diversidade é assumido pela indústria, o que é – ainda mais após os novos modos de negócio da internet – profundamente global. Portanto, o particular foi trazido para o universal. Isso torna esta indústria um grande caso de estudo, já que permite que entendamos mais profundamente como os discursos universal e particular estão relacionados na percepção do mundo. Proponho que ao invés de falarmos da morte do discurso universal e da predominância do particular, o que devemos ver é a interação entre estes, e suas consequências culturais, já que o commando destes discursos é extremamente controlado.

