Cachopo, João Pedro (Lisboa) – “Quão política é a música? Uma abordagem através de Adorno e Rancière”
João Pedro Cachopo, licenciado em musicologia (maior) e filosofia (minor) pela FCSH-UNL, redige actualmente uma dissertação de doutoramento co-orientada pela Professora Filomena Molder e pelo Professor Christoph Menke, subordinada ao tema “Verdade e enigma no pensamento estético de Adorno”. No contexto deste trabalho tem desenvolvido investigação em Lisboa, Potsdam e Paris. Os seus interesses incluem os campos da estética, da filosofia contemporânea, da musicologia e dos estudos literários. Autores principais: Nietzsche, Adorno e Deleuze. Colabora com o Teatro Nacional de São Carlos (desde 2006) e com a Fábrica de Braço de Prata (desde 2007).
Resumo:
Nesta comunicação pretende-se explorar a hipótese segundo a qual o conceito de “mediação” [Vermittlung] e a noção de “partilha do sensível” (partage du sensible), respectivamente desenvolvidos por Adorno e Rancière nos seus escritos estéticos, lidam no fundo com o mesmo tipo de problema e, consequentemente, podem constituir em conjunto uma rede conceptual estimulante para pensar o teor político da música, sem o reduzir a uma mensagem ou a um programa ideológico.
Começarei por elucidar alguns dos seus aspectos comuns, baseando a análise em alguns textos cruciais da sociologia da música de Adorno, nomeadamente no artigo “Mediação” e em alguns dos últimos trabalhos de Rancière, entre os quais importa destacar A partilha do sensível. Por um lado, ambos os filósofos trabalham a partir da ideia de que sociedade e arte não são radicalmente separáveis. Por outro, ambos recusam a ideia segundo a qual a última seria finalmente redutível à primeira. Por outras palavras, nem a pretensa autonomia absoluta, nem um reducionismo positivista constituem o pano de fundo teórico das abordagens de Adorno e Rancière em matéria de estética.
Apesar de Rancière – neste ponto contrastando drasticamente com Adorno – raramente considerar a especificidade da música, tentarei demonstrar como a noção de “partage du sensible”, ligada à de “Vermittlung”, surge analiticamente fértil no âmbito da análise do “teor político” de algumas obras musicais. Neste ponto, o Coro de Berio acabará por revelar-se um excelente ponto de partida.
Globalmente, tentarei tornar claro como estes dois conceitos contribuem para esclarecer o modo imanente como a música, pelos seus próprios meio, quer dizer, desdobrando a sua dinâmica, lógica ou estratégia particulares, se revela “política”, “crítica”, ou mesmo – como Adorno pretende em última instância –, intrinsecamente ligada a uma noção não-representativa de verdade, na medida em que engloba, desenvolve e reelabora o tipo de hierarquias sensíveis, de distribuições horizontais/verticais ou de processos dinâmicos, cujo desenvolvimento constitui o próprio âmago da política.

