Clague, Mark (Ann Arbor – Michigan) - “Para uma Socialidade da Invenção Artística, ou A Instituição como Musa: A Associação Auditorium de Chicago e a Criatividade das Organizações Musicais nos Estados Unidos”
Mark Clague é Professor Assistente de Musicologia, Cultura Americana e Africana e de Estudos Africanos e Afro-Americanod na Universidade de Michigan (Ann Arbor). A sua edição das memórias de Alton Augustus Adams, primeiro Chefe de Banda negro da Marinha dos Estados Unidos, foi publicado pela University of California Press e “Music for the People”; o livro ‘Chicago's Auditorium Building and the Institutional Revolution of Gilded Age Culture' será publicado em breve pela University of Illinois Press. Na qualidade de Director Associado do Instituto Americano de Música da Universidade, publicou vários artigos em revistas como American Music, Opera Quarterly, and the Black Music Research Journal. Apresentou comunicações em diversas conferências que abrangem desde a American Musicological Society e a Society for American Music à Society for Ethnomusicology e ao Experience Music Project.
Resumo
Explorações da criatividade na música envolvem tradicionalmente os compositores e as suas obras. Abordagens mais recentes abordagens analisam o papel criativo dos intérpretes ou mesmo dos públicos na realização e recepção de obras musicais. No contexto dos Estados Unidos, possivelmente ainda mais influente é o trabalho do colectivo, não só de grupos de compositores, grupos musicais, ou conservatórios, mas também as estruturas administrativas, constituindo associações e sociedades profissionais que gerem, encomendam, legitimam e apresentam a música na vida cultural americana. Esta comunicação tem por objecto a Auditorium Association (fundada em 1888), que construiu uma novo teatro de ópera para a cidade de Chicago como tentativa de transformar o negócio das artes nos Estados Unidos, reformular a sociedade americana, e inspirar uma nova era de ópera americana. Concluo que as organizações culturais podem ser analisadas como instituições essencialmente criativas, na medida em que mudam as práticas artísticas ao oferecerem um locus de novas práticas culturais e encomendas de novas obras e forjarem relações únicas entre a arte e o público.
À superfície, o Auditorium de Chicago consiste na tentativa de transformar o mecenato artístico, resolvendo a tensão entre abordagens não-lucrativas e abordagens empresariais, encarando a cultura como um investimento. O edifício, que incorporava um espaço comercial para uma farmácia, hotéis, escritórios e restaurantes, bem como actividades tais como uma estação meteorológica da guarda costeira e uma empresa de engarrafamento artesiano, visava contribuir para transformar a cultura em lucro. No entanto, este ardil pressupunha que quem investiria em cultura seria a classe mais alta dos barões da indústria e da finança, afirmando poder social através da cultura, como política para manipular a hierarquia social de Chicago. Os construtores do Auditorium proclamavam uma abordagem “democrática” da produção cultural, que usava a enorme dimensão do auditório, na altura o maior edifício nos Estados Unidos, para acolher um público mais amplo do que o normal: mais de 5.000 pessoas por espectáculo. Foram criados espectáculos especiais para trabalhadores, ali se realizaram também reuniões da Conferência Económica Chicago que juntava os líderes da indústria e do trabalho. Por último, o edifício dispunha da maquinaria de palco tecnologicamente mais sofisticada, um sistema adaptado de Budapeste e Viena, na esperança de melhorar o realismo cénico e dar início a uma nova era da produção de ópera nos Estados Unidos, inspirando por sua vez os compositores a florescer no género. Considerado como um todo, a Associação Auditorium funcionava como uma décima musa, no sentido de inspirar a arte musical a redimensionar a cidade da era industrial.

