Participantes

   

Neto, Diósnio Machado (S. Paulo) – “A viola e o véu: a modinha nos processos de redefinição da crítica social no Brasil setecentista”

 

Diósnio Machado Neto possui graduação em Bacharel em Música - Habilitação Instrumento - pela Pontificia Universidad Catolica de Chile (1992), mestrado e doutorado em Musicologia pela Universidade de São Paulo (2001; 2008). Ingressou no corpo docente do Departamento de Música da ECA/USP em 2002. Atualmente é professor no Campus de Ribeirão Preto e presidente da Comissão de Pesquisa do Departamento de Música da ECA/USP. Tem apresentado trabalhos em importantes congressos no Brasil e no exterior, destacando a organização do Encontro de Musicologia de Ribeirão Preto e participações em colóquios na Universidade Nova de Lisboa; na Fundação Calouste Gulbenkian, na Universidade de Coimbra e na Sociedade Chilena de Musicologia.

 

Resumo

 

Em meados do século XVIII, na transição entre o absolutismo joanino e o despotismo josefino, a visão de uma "humanidade impossível" da sociedade brasileira era inquestionável nos círculos administrativos. O fundamento dessa leitura sobre a colônia vinha em construção desde a Restauração e tinha como base a percepção da grande instabilidade social advinda por uma impossibilidade de estabelecer os paradigmas da sociedade estamental no modelo considerado “civilizado”. Durante todo o século XVIII, inúmeras políticas trataram de "corrigir" a situação partindo sempre da interpretação que a quebra do modelo social estava atrelado à suposta moral conspurcada da população. No consulado pombalino, a necessidade de um “pacto” com a elite da terra tornou o problema mais agudo e delicado. Entre muitas ações para transformar a sociedade colonial brasileira, podemos observar como um conceito de persuasão tornou-se preponderante: a dramatização do espaço público e privado pela valorização da arte profana. A música mediou, então, um trânsito entre as manifestações populares, de onde derivava a burguesia emergente, com os padrões conservadores da elite salvacionista, de forte sentido religioso. Assim, a nova classe teve que eliminar a sensualidade corporal típica de suas danças e cantos para que as vias de acesso aos círculos elevados da sociedade colonial não maculassem as normas da moral cristã-aristocrática. O objetivo da comunicação é justamente observar as formas dessa mediação consubstanciada em pauta estética, observando a relação da modinha, gênero que melhor explicitou o fenômeno junto com a ópera, com aspectos ideológicos que inoculavam a organização social pela remodelação do espaço privado. Era uma estratégia para inocular uma nova sensibilidade através da valorização do ambiente doméstico, da mulher casta e virtuosa - revitalizando um surto mariológico – e do crescimento da própria crítica individual construído também no ambiente leigo e não só nas doutrinas religiosas. Enfim, alterando a sensibilidade e estrutura das relações pessoais, tratou-se de redimensionar os padrões dos espaços públicos. Assim surgiu uma poesia de erotismo retraído que reanimava alguns ideais da lírica quinhentista, em que o amor era mitigado pela distância corporal, velado e preso na intimidade do espírito onde o desejo era aplacado pelo juízo. Nessa senda, a modinha negou os gestos fortes dos ritmos afro-descendentes dissimulando a característica erótica pela languidez melódica, consubstanciada na incorporação dos modismos da ópera italiana. Em síntese, na alteração da sensibilidade social, o gênero foi fundamental para sedimentar novos espaços de sociabilização, além do espetáculo litúrgico.

 

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